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| Gratidão e aceitação. |
Ontem foi o dia mais difícil. O dia já começou difícil. Acordei com uma mensagem no grupo da família do meu primo Thiago sobre seu bebê que iria nascer. O Thiago é uma pessoa que considero como um irmão. Já até moramos juntos por anos; minha mãe, eu, tia Lú e Thiago. Nos mudamos juntos para Ipatinga! Cresci com duas mães e dois irmãos, e foi a melhor coisa que me aconteceu! Minha mãe e a Tia Lú abriram um salão quando nos mudamos pra Ipatinga, era o Salão Moutim. Era chique, era grande, tinha de tudo e tinham tantas toalhas brancas! Hahaha. Minha mãe era/é cabeleireira e a tia Lú esteticista. O salão bombava! Não sei, ou não me lembro, porque fechou.
Crescer com o Thiago foi incrível. Meu irmão era mais cuzão comigo quando não vivíamos mais com o Thiago, mas as vezes o Thiago também era um cuzão comigo. Todo mundo a minha volta parecia estar sempre sem paciência pra nada. Eu sempre fui muito curiosa e insegura, já tinha medo de perguntar, quando sentia um pouco de segurança em fazer uma pergunta ninguém tinha paciência. Nunca podia agora. Minha mãe sempre muito ocupada trabalhando e sendo mãe e pai, minha tia sempre muito ocupada tentando levar uma vida não muito diferente da que eu levava com minha mãe, mas todos sempre muito unidos!
Aos meus 19 anos de idade eu tentei tirar a minha própria vida. Foi um dia difícil. Eu já tinha minhas crises de ansiedade, já estava no meio de mais adolescentes problemáticos como eu, já havia passado pela sexualização, drogas, álcool, etc. Já havia vivido demais pra uma menina de 19 anos.
A minha mãe sempre foi muito grosseira e rude pra tudo, uma verdadeira cavala. É professora de ensino fundamental, sempre teve a vida muito difícil também e não teve a oportunidade de conhecer mais sobre saúde mental como eu estou tendo. Eu absorvi essa mesma personalidade dela. E outra coisa que temos muito em comum é a nossa intensidade. Quando sentimos algo, nós sentimos muito intensamente. Quando amamos, amamos quase mais que a nós mesmas. Quando sofremos parece que o mundo se acabou pra nós. Somos mulheres profundas.
Nesse dia eu já havia acordado me sentindo mal. Eu saía bastante, estar com qualquer pessoa era melhor do que estar em casa. Nesse dia eu e minha mãe tivemos uma das milhares de discussões exageradamente agressivas que já tivemos. Eu troquei de roupa, peguei umas moedas que eram tudo que eu tinha e desci pro bar do Shaolin. Chegando lá eu pedi um copo americano de cachaça e me sentei na mesa que ficava na praça bem em frente. Virei esse copo inteirinho. Não me lembro de muita coisa mais, mas encontrei um amigo, Augusto, e ele me levou pra. casa pois eu estava muito bêbada. Quando chegamos na minha casa eu e minha mãe começamos a discutir. A voz da minha mãe é muito alta, apanhar dela é gostoso perto de escutar ela gritando na sua orelha por 5 minutos. Não me lembro de muitos detalhes, sei que cheguei em um nível de frustração tão grande que eu me esqueci da presença do Augusto que me esperava sentado no sofá. Enquanto minha mãe gritava do computador (viciada em jogos como buraco (baralho) e Candy crush), eu dei uma voltinha na casa e peguei todos os comprimidos que eu encontrei, entrei no meu quarto e comecei a engolir um por um. Não sei se o Augusto viu e disse pra minha mãe, mas enquanto eu colocava o ultimo na boca ela apareceu na porta e perguntou: "O quê que é isso?" Eu não sei porque, mas surgiu um sorriso nos meus lábios, eu engoli o último comprimido e fui caminhando pro banheiro, e ela ficou no quarto tentando entender o que eu tinha feito. Quando ela percebeu todas as embalagens de remédio ela entendeu o que eu havia feito, veio andando atrás de mim me mandando cuspir, então eu me tranquei no banheiro. lá eu fiquei procurando algo pra poder me cortar (eu tinha esse péssimo hábito de automutilação) e encontrei um prestobarba. Não sei como, mas comecei a deferir cortes pelo meu pescoço. Tentei tanto cortar fundo que fiquei com o pescoço cheio de riscos e cortes apenas meio-profundos. Fiquei frustrada pelo. prestobarba não ajudar em nada, comecei a me odiar. Comecei então a deferir cortes pelos meus braços, pernas, barriga. Onde havia espaço eu machuquei. Eu nem sentia mais dor. Eu comecei a chorar e ficar muito irritada. Encostei na parede e me sentei no chão, e minha mãe já estava socando a porta me pedindo pra abrir pelo amor de Deus. Eu levantei a mão e destranquei a porta. A única coisa que me lembro é da feição de raiva da minha mãe desaparecer e dar lugar ao desespero. "O que você fez, minha filha?" Ela perguntou enquanto chorava muito e eu já não conseguia mais levantar do chão. Ela pediu ajuda pro Augusto e ele me carregou pro carro e nos levou pro hospital. Eu lembro de estar deitada numa maca e ver meu primo aparecer na cena, o Roberto. Ele é médico e minha mãe havia ligado pra ele. Ele falando com as enfermeiras que a sonda que elas iam usar em mim era muito grande, se eles não poderiam usar a menor. A mulher disse que ia usar aquela mesmo e eu não quis deixar ela enfiar. Já estava doendo muito enquanto ela tentava. Ela me disse "se você continuar segurando eu vou te amarrar. Você quer ser amarrada?" Porra, claro que eu quero ser amarrada sua retardada! Então meu primo disse que deveriam trocar minha roupa, porque eu iria sujar quando eles fizessem a lavagem, pois sai por todos os buracos. Ela novamente foi uma insensível e disse "não tem problema não". E foi o que aconteceu, eu sujei minha roupa.
Me lembro de acordar depois com meu pai em cima de mim. Demorei a perceber que não estava sonhando. Ele estava tentando ver meu pescoço… Quando viu a única coisa que fez foi balançar a cabeça negativamente, visivelmente decepcionado, e não comovido. Ele se certificou de que eu estava bem e novamente pegou estrada de volta pra Caratinga. E eu continuei me sentindo. pior merda nesse mundo. Fiquei pensando "talvez se tivesse morrido ele teria ficado". Eu nunca mais ouvir falar no Augusto, que me excluiu do Facebook.
Na semana seguinte todo mundo resolveu me dar carinho e atenção.
Minha tia me levou pra morar com ela em Caratinga. Já estava morando com minha tia há um tempo quando começamos a planejar pra eu ir em um retiro espiritual com meu primo Luiz Paulo e sua namorada e hoje esposa, Helenice. Fui dormir na casa da minha tia Conceição; uma mulher muito católica e extremamente inteligente e amorosa. Fui no primeiro retiro, 3 dias. Foi incrível! Meu encontro com Deus foi incrível! Eu usaria a palavra mágica pra descrever esse retiro! Quando voltei pra casa encontrei as luzes apagadas, então acendi a primeira luz que era a da garagem, Vi um papel na parede me mandando seguir outro papel, então encontrei outro e depois outro e fui seguindo e encontrando cartas de amor da minha família pela casa. Todos fizeram! Primos, tios, avós… Quando cheguei no último eu já estava entrando no closet da minha tia. Quando acendi a luz a minha mãe estava lá dentro com a Cindy, minha gatinha siamesa, fazia meses que eu não a via. Chorei de emoção, peguei a Cindy, abracei minha mãe, e foi tudo muito maravilhoso!!!
Nessa casa morávamos eu, ela, o Thiago e a vó Marlene. Eu não consegui ficar mais que 6 meses pois comecei a me incomodar com o tempo. Eu trabalhava de 6 as 11h na torrefação de café da minha tia, e depois ficava até 18h no cursinho pre-vestibular de medicina. Eu queria ser médica. Eu não recebia porque minha tia já estava pagando meu cursinho. E eu detestava depender 100% de alguém já tendo trabalhado antes na vida. Eu já me sentia extremamente solitária e triste. Eu estava também frequentando a igreja católica; grupo de jovens as quartas e missa aos domingos. Começou a ficar difícil continuar ali porque minha tia me tratava como posse. Ela queria literalmente mandar em mim pra me ensinar um pouco a respeitar as leis/regras. Sempre fui de questionar as coisas. As vezes eu queria ir na missa, ou no grupo de jovens e ela não queria me levar, já estava de pijama. Eu pedia o Thiago pra me levar, outra desculpa. Então pedi meu irmão, ele me disse que me buscaria na minha tia, me levaria no grupo de jovens, depois me buscaria no grupo e me levaria na casa da minha tia de novo. Ele morava do outro lado da cidade. Aí fui toda feliz dizer pra tia Lí e ela ficou PUTA, possessa porque eu havia "desobedecido ela". "Se eu disse que você não vai, você não vai! Você vai passar por cima de mim agora?" Aí quem ficou puta fui eu! Poxa, me apresentaram pra Jesus e agora querem me afastar dele? Eu estava no auge da minha espiritualidade, se parasse de ir ia voltar tudo de novo! Eu hoje entendo que minha tia sempre foi muito ocupada, muito trabalhadora, e assim como meu pai ela não teve tanto tempo pra aprender a ser tia ou ser mãe. Hoje só sinto amor por eles! Mas não demorou eu pedir pra meu tio Toninho me buscar e me levar na BR pra eu pegar um ônibus pra ir de volta pra casa da minha mãe. E então voltei pra vidinha mais ou menos. E cá estou! Morando em Londres há 2 anos, moro com minha namorada, escrevo com mais frequência, faço acompanhamento terapêutico, e depois de tudo que vivi não imaginava que estava tomando amitriptilina como antidepressivo. Pois é. Ontem tive duas crises, e também foi dia de terapia. Durante a primeira crise mandei mensagem pra Rosiane (terapeuta) falando sobre minhas crises terem voltado. E no meio da conversa ela me perguntou se estou tomando algum remédio, disse que sim, Amitriptilina 10mg, tomo 3 pílulas antes de dormir. Ela me disse que então talvez fosse melhor procurar um psiquiatra pra poder aumentar a dose e/ou talvez acrescentar outro. Aí fiquei confusa, porque quem me receitou esse remédio foi o gastroenterologista e também me encaminhou para uma endoscopia. Ele não me disse que era um antidepressivo, ele apenas me disse que me deixaria um pouco sonolenta. Então a Rosi me respondeu que talvez ele tivesse entendido os aspectos emocionais do meu sofrimento com o estômago e decidiu testar um antidepressivo em dose bem baixa. E resolveu. E então tudo fez sentido. Passou um filme na minha cabeça. Voltei lá na minha primeira endoscopia aos 7 anos de idade. Tive que ir pra Coronel Fabriciano porque em Ipatinga ainda não faziam. Foi horrível, fiquei bem sonolenta. Depois me lembrei da segunda, da terceira, da quarta, e da última, pela qual descobrimos que tenho uma hérnia causada por refluxo, um dos sintomas/efeitos colaterais da síndrome do pânico, junto com problema nos rins e reincidência de infecção urinária, e todos esses eu tive. Percebi que fui doente a vida inteira. Que perdi 18 anos da minha vida vivendo descontroladamente. Hoje me pego cansada, com medo de ter que reaprender tudo de novo. Medo do que vai ficar quando eu finalmente conseguir me desprender da personalidade que absorvi da minha mãe. Não que seja ruim, minha mãe é uma mulher incrível de coração enorme. Mas acho que já tá na hora de descobrir as coisas que eu gosto e o tipo de pessoa que eu quero ser. Tenho estado satisfeita com os "reviews" que tenho recebido das pessoas que me amam. Elas tem percebido uma melhora em mim, e aparentemente eu tenho conseguido ser boa pra várias pessoas, então não estou tendo muito do que reclamar. Os piores momentos são os de crise por causa do terror real que eu experimento na hora, mas eu fico em paz ao mesmo tempo porque eu sei que vai passar e que tá tudo bem. Eu só não estava acostumada a me sentir amada e querida, e a retribuir. Mas, eu posso aprender com isso! <3

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