As vezes acordo pouco antes das 6h, as vezes um pouco antes das 7h. As vezes consigo dormir direto até as 9h. Mas seja lá qual for a hora que eu abrir os olhos na cama, eu não consigo dormir mais.
De manhã ao acordar, normalmente eu sinto muito enjôo e queimação no estômago, as vezes dores de cabeça por ter tido insônia e ter passado a noite inteira tentando dormir. A primeira coisa que faço: eu pego meu celular e passo alguns minutos checando Whatsapp e redes sociais. As vezes ligo a TV e passo o resto do dia ali mesmo.
As vezes me levanto, pego no guarda roupas minha escova de dentes com pasta, coloco a toalha de rosto no ombro, pego o rolo de papel higiênico e vou pro banheiro fazer minhas necessidades matinais.
Quando volto ao quarto, dobro e guardo as roupas que estiverem espalhadas, arrumo a cama, e depois de tudo limpo e organizado, sento-me na cama e por ali mesmo eu provavelmente passarei o resto do dia oscilando entre assistir algo na TV (Youtube ou Netflix) ou fazer qualquer coisa no meu celular desde procurar emprego a jogar Free Fire, esperando a hora que minha namorada chega do trabalho. Nós moramos juntas. Parte do meu dia eu passo feito um cãozinho esperando a hora dela voltar pra casa, pois é o momento do dia em que minha mente perde a autonomia sobre mim, o amor e carinho que minha namorada tem por mim são o melhor remédio para os meus momentos de tristeza e ansiedade depressiva.
Sábado passado eu pedi um tempo no trabalho, pois estou com problemas fisicos e psicologicos. Eu voltarei a trabalhar quando conseguir pensar em sair de casa por mais de 10 minutos sem ter uma crise de ansiedade e pânico (e mesmo sem conseguir sair de casa eu vivo marcando e desmarcando entrevistas). Pois é, agora dei pra ter crises de ansiedade quando preciso sair de casa. Não é sempre, mas é quase sempre, por isso acaba afetando no meu trabalho e em todas as áreas de minha vida.
O meu humor durante o dia oscila tantas vezes que eu nem consigo colocar no papel. Oscila entre tristeza, empolgação, tesão repentino que desaparece do nada também, alegria, raiva, etc. As vezes eu evito o Facebook e jornais, evito coisas ruins e coisas que possam me trazer energias ruins.
Hoje é dia 8 de março, dia da mulher. Dia da mulher que é bem sucedida, da mulher não tão bem sucedida, da mulher que é incendiada pelo namorado, da mulher alvejada por tiros porque defendia os direitos das pessoas que a sociedade machista e preconceituosa tenta tirar, da mulher que trabalha como faxineira e tem que usar um banheiro diferente e as vezes nem usar o banheiro pode; é o dia de todas as mulheres se lembrarem e reforçarem a luta diária pelos nossos direitos e nossa liberdade.
Hoje eu acho que não terei nenhuma crise, pois acordei sem enjôo e sem dores, estou evitando o Facebook e o canal de notícias, meu quarto está arrumado, limpo e arejado. Estou sentada na cama da maneira mais confortável possível escrevendo a primeira página do meu diário pessoal; eu decidi fazer esse diário por 1 razões: pra testar meu comprometimento, pra medir e saber identificar minha melhora (ontem eu pedi ajuda psicologica pelo telefone no hospital local, pedi ajuda de uma psicologa Brasileira que atende pelo Whatsapp, pedi ajuda a meu irmão, a minha mãe e a minha namorada) e pra possivelmente usar como uma recordação do meu progresso caso eu o alcance, ou pra ficar de história caso eu falhe nessa nova luta, que é a luta pra recuperar o apreço pela minha vida.
As vezes eu tenho um pouco de disposição reserva que eu uso pra descer pra cozinha e fazer almoço/janta.
Vou citar em lista de maneira objetiva acontecimentos marcantes dos meus últimos dias:
- Comecei a procurar emprego feito louca pois ja fizemos 3 mudanças em 1 mês e ainda não encontramos nosso cantinho.
- Fiquei sem dinheiro total
- Tenho sido basicamente sustentada pela minha namorada porque não tenho conseguido manter frequência no trabalho.
- Encontrei um emprego que parecia uma oportunidade maravilhosa mas precisaria passar em um teste após 2 dias de treinamento.
- Minha namorada sofreu acidente de moto
- Ficamos as duas sem dinheiro
- Atrasamos o primeiro aluguel
- Eu passei no teste com 99% de acertos, provei que uma questão apresentava um erro que influenciava diretamente nas respostas, fechei em 100% e ainda ajudei mais pessoas com isso.
- Minha empolgação foi a mil!
- Primeiro dia de trabalho, eu fui pra rua pra assistir aos veteranos trabalhando pra poder fazer sozinha no segundo dia.
- Meu primeiro dia vendendo por conta própria, mas ainda junto a uma colega de trabalho. Fiz minha primeira venda sob supervisão!
- Meu primeiro dia de trabalho sem a supervisão de outra pessoa. Fiz minha primeira venda sozinha!
- O trabalho começou a ficar pesado pois a dor nas costas do primeiro dia simplesmente não passa.
- Atrasamos o segundo aluguel (nosso aluguel é pago semanalmente)
- A dor nas costas começou a me fazer repensar esse emprego pois antes do fim do dia já estava quase impossível continuar em pe.
- Recebi o primeiro salário com incentivo, quitei um aluguel e sobrou mais um.
- Minha namorada recebeu uma parcela do salário pois com o acidente de moto ela precisou voltar pro antigo emprego e abandonar a profissão de entregador de lanches. Quitamos o segundo aluguel.
- Meu aniversário eu tentei comemorar duas vezes. Uma na minha casa e uma num jantar na casa de uma amiga minha e de minha mãe, nos conhecemos há anos na minha cidade Ipatinga. Na minha casa foi humilhante pois quase ninguém apareceu, quem apareceu não fez muita questão de nada nem de ficar muito, pra piorar eu achei que tomando meia bala (droga) eu conseguiria me animar um pouco mais. Quando fez efeito eu entrei em pânico e me escondi no meu quarto e não quis ver ninguém, na comemoração do meu aniversário no domingo 3 de março de 2019. Dia 5 de março foi o jantar na casa da Cleonice, a amiga citada acima. Eu fui atender meu pai na escada e quando voltei a janta estava pronta, não havia mais pratos, não havia lugar pra sentar e eu comecei a perceber que ali também não passaria de apenas uma festinha, e não meu aniversário. Servi o que havia restado de comida pra mim e pra minha namorada que havia ido no mercado me comprar algo que eu queria muito comer (doughnuts) e um bolinho (ela não achou) pra cantar parabéns. Ela está com prótese na mão direita, precisava se sentar pra comer. Eu precisei insistir pra uma das pessoas que estava sentada apenas conversando pra ceder o lugar pra Jackie (minha namorada) comer na mesa, fui ignorada. Acabei arrumando outro lugar pra ela se sentar e me sentei no chão pra comer. Começou a ficar humilhante quando uma ou outra pessoa passava e comentava sobre a aniversariante estar comendo no chão. Todo mundo fingiu que não estava escutando. Eu continuei comendo onde estava e pedi pra pararem de focar nisso. Eu já estava me sentindo envergonhada. De repente vem uma das pessoas que estava presente e novamente insistiu pra que alguém se levantasse pra eu poder sentar e comer, ela falou e continuou fazendo o que estava indo fazer. Antes que eu pudesse me levantar, veio uma pessoa que já estava sentada em outro lugar anteriormente, e se sentou nesse banco que haviam cedido pra mim. Eu continuei comendo quieta sentada num cantinho. E então vem novamente a mesma pessoa reclamar que eu estava comendo no chão, a pessoa que estava sentada em alto e bom tom, sem nem olhar na minha cara, gritou indignada que o banco ficou 40 segundos vazio e ninguém sentou. E continuou falando alto coisas que eu nem consegui ouvir de tão envergonhada que eu estava me sentindo. A pessoa que reclamou por mim me fez levantar e sentar, e isso foi o mais humilhante. Na frente de todo mundo, depois disso tudo, me pegar pelo braço e me fazer sentar naquele banco. Esperei ela sair e coloquei minha vasilha de comida na pia, minha garganta havia travado de maneira que não passasse nem ar, de tanto constrangimento. Esperei 2 minutos e comecei a me despedir de todos ali. Então, a mesma pessoa que antes havia trazido a atenção de todos ali pra mim no momento de comer sentada no chão, me segurou, acendeu um isqueiro na minha cara e fez todo mundo cantar parabéns pra mim. Eu não conseguia nem respirar. Quando acabou essa cerimônia, me despedi de todos tendo que segurar as lágrimas ao abraçar a Cleonice e o Kesley, as únicas pessoas que se importavam comigo ali além da minha namorada. Ao sair de lá foi um triste e silencioso caminho até em casa. O início do dia havia sido passado junto apenas da Jackie, então foi o detalhe que salvou o dia 05 de março de 2019, o meu aniversário (segundo consecutivo longe de casa). (Obrigada, meu amor!)
- Na quarta feira eu decidi ficar em casa lavando e secando roupa, limpando o quarto e a casa e já deixando uma janta bem gostosinha pra quando a Jackie chegar em casa poder tomar um banho sem esperar muito pra poder jantar!
-Na quinta feira ao me arrumar pra levar alguns curriculos nas lojinhas e mercearias perto de casa, eu comecei a ter novamente outra crise de ansiedade, não consegui descer nem a escada que separa meu quarto da cozinha... Nesse mesmo dia no momento de crise os mesmos pensamentos suicidas que costumo ter vagando em minha mente começaram a vir com foça total, eu estava frustrada me julgando preguiçosa e tentando entender porque diabos eu sou esse péssimo exemplo de ser humano que não consegue nem fazer ou manter amigos. Eu chorava muito perguntando pela milésima vez aos céus porque eu vim parar aqui e por que eu não fui levada ainda se essa tem sido a maior vontade do meu coração, e Deus sabe que tem sido. Há tempos. Eu tenho medo do que posso fazer em um momento de crise um pouco mais forte caso eu esteja sozinha. Meu histórico não é muito bom nesse quesito. Não sei de onde, mas tirei forcas pra ligar pro hospital local e pedir ajuda de um psicologo ou psiquiatra. Eu preciso esperar de 1 a 3 semanas até que consigam um horário pra mim, enquanto isso me fizeram garantir que tenho condições de me manter segura por esse período, me deram alguns telefones de contato que posso ligar a qualquer momento caso tenha alguma crise. Me senti um pouco menos pesada, porém fui orientada pelo telefone a conversar com minha namorada sobre a minha situação, ou com alguém proximo em quem eu confie. Eu não tinha ideia da minha situação e ainda não tenho exatamente, mas sei que represento perigo a mim mesmo, e eu ainda não havia conversado sobre isso com ninguém. Na mesma quinta feira recebi uma mensagem de uma psicóloga indicada pelo meu irmão, uma das pessoas com quem conversei sobre minha situação. Ela disse estar disposta a me ajudar, mas primeiro preciso preencher dois questionários.
- Hoje é sexta feira. Eu decidi que quero me conhecer tanto doente quanto após curada, eu quero entender exatamente o que está acontecendo comigo, e acho que uma boa maneira de já começar a trabalhar isso tudo em mim é externalizando o que tem dentro de mim mesmo que apenas em um texto que ninguém além de mim nunca vai ler. Hoje eu preenchi os formulários que recebi da psicóloga e encaminhei novamente pra ela; ela vai me atender por Whatsapp, ainda não sei se por chamada de vídeo ou como será feito, mas ela já me adiantou que preciso sim de acompanhamento psicológico e disse estar disposta a me tratar. Eu fiquei contente em saber que posso ter outra saída. No momento estou sentada terminando de escrever um puta texto sobre o quanto eu estou adoecida por dentro. Os próximos capítulos desse meu diário provavelmente serão menores, mas aos poucos, em alguns dias, talvez eu me lembre de contar alguma história.
Quando tudo começou, eu tinha 4 anos de idade e havia acabado de descobrir que meu pai tinha uma filha de 18 anos com a ex namorada, a descoberta foi em dose quádrupla: nem meu pai sabia, até onde eu sei. E se sabia, ele resolveu trazer a tona no momento errado. Ela apareceu dizendo que queria conhecer o verdadeiro pai e os irmãos, eu me apaixonei a primeira vista pela minha irmã. Sempre fui muito carente, e ela me tratou tão bem que eu precisei de apenas 10 segundos pra adotar ela como minha irmã mais velha! Ela sempre aparecia na minha casa pra me ver, e eu comecei a ficar vidrada na moça loira dos olhos verdes que vinha sempre me ver e me tratava sempre tão bem!
Só que do nada algo aconteceu na casa dela ou não, eu não sei, mas ela desapareceu e eu nunca soube o porque. Eu via ela passar na rua e ela me via também, mas ela virava o rosto pra não me ver, ou olhava pra qualquer coisa menos pra mim. E eu sempre tão bobinha nunca quis ser invasiva de incomodar ela quando ela deixava claro que eu não existia mais pra ela, nem meu pai, nem meu irmão. O problema, é que eu era uma criança. Aos 5 anos de idade minha mãe jura que eu tive depressão, pois eu dizia pra ela que ia andar no patins do vizinho no terraço, ou fazer qualquer coisa que seja no terraço de casa, mas era mentira, eu colocava os patins no canto, me pendurava na mureta e ficava fitando a casa da minha irmã. Ela morava bem na esquina de onde eu me mudei quando meus pais se separaram. Pois é... eles se separaram no meio dessa confusão toda. O meu irmão não demorou ir morar com meu pai, e eu ficando com minha mãe. Eu me lembro de tudo isso que estou escrevendo. E até pouco tempo atrás isso ainda era uma dúvida na minha cabeça. Eu tinha meus 12, 13, 14 anos e ainda não entendia porque a minha irmã não gostava mais de mim. Sempre pedia pra minha avó deixar eu ler uma carta que a Anna Carolina (a minha irmã) havia escrito pra ela, e nessa carta ela falava algo bem breve mas citava o meu nome e o do meu irmão. E voltar naquela carta e na foto que a minha avó tem dela era sempre um pouco reconfortante pra mim. Eu havia perdido uma irmã que ainda estava viva. Eu era obcecada pela Anna Carolina. Eu procurava as irmãs dela nas redes sociais pra ver se conseguia ver alguma foto dela, e saber como ela estava, com o passar dos anos. Eu pedia sempre minha avó pra me contar histórias sobre quando ela ainda fazia parte de nossa vida.Foi sempre assim. Mesmo ausente ela sempre foi presente na minha vida e nos meus pensamentos, provavelmente apenas porque eu nunca entendi o que eu havia feito pra ser abandonada pela minha irmã, e depois pelo meu pai (coisa que eu provavelmente vou deixar pra escrever sobre em um outro dia). E aos poucos fui me esquecendo dessa obsessão que tinha por ela, e fui vivendo minha vida, só que até chegar nessa parte foi tudo muito conturbado, e eu provavelmente ainda irei escrever sobre isso em outro momento também; sobre minha adolescência louca e precoce.
Em 2011 ela apareceu do nada me mandando mensagem no Facebook (ou orkut, não lembro bem o que eu usava na época) se desculpando e dizendo que se eu a aceitasse de volta, que ela gostaria muito de fazer parte da minha vida. Pois bem, eu sempre muito ingênua nunca consegui não perdoar alguém, então aceitei ela em minha vida novamente, porém eu havia me mudado pra Ipatinga (minha família inteira tanto o lado paterno quanto o materno vive em Caratinga), então liguei pro meu pai e contei da novidade, e perguntei se eu podia falar pra ela procurar ele também, pois ela me disse que gostaria. Ele aceitou e logo marcamos um dia pra eu ir em Caratinga e reencontrar a minha irmã! E nos reencontramos! Tiramos fotos, eu conheci o meu sobrinho João Augusto, a coisa mais linda e loirinha que eu já vi! Infelizmente, como nunca fui de ter muita sorte, num belo dia ela desapareceu novamente e meu pai me contou que ele havia emprestado uma quantia em dinheiro pra ela, que ela havia se mudado pra outra cidade sem nunca mais falar com ninguém. Dessa vez eu sofri menos, mas ainda sofri muito. Deixei a vida seguir. Ela já me encontrou no Instagram novamente e já até trocamos umas conversas, mas acredito que ela conseguiu matar a paulada toda a paixão que eu sentia por ela. Sobrou o amor que eu carrego por cada ser humano que caminha ou já caminhou sobre a terra, o carinho de "aquela pessoa que já foi muuuuuito importante pra mim mas não é mais", e a certeza de que se um dia ela precisar de algo e eu tiver condições, ainda vai ser uma satisfação imensa poder ajudar.
Hoje não vou mais escrever, mas esse foi o início de tudo, de todo o caos na minha vida. Espero conseguir encontrar uma sequência e organizar os fatos pra que talvez eu e um profissional possa analisá-los depois, o que é o principal objetivo desse diário. Que você tenha um ótimo resto de tarde, Amanda.
Comentários
Postar um comentário