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11/03/2019 - Segunda feira.

Hoje me sinto estranha. Não sei porque mas não consegui dormir bem na noite passada. Eu estava com muito sono, chegava a cochilar, mas acordei inúmeras vezes e quando abria os olhos me sentia totalmente sem sono. As 4h da manhã já acordei extremamente irritada. Fui ao banheiro e tomei mais 2 comprimidos de amitriptilina (22h havia tomado 3 comprimidos de 10mg cada), o remédio que o gastro me passou (que por sorte me ajuda a dormir também), e acabei fumando uma pequena porção de erva (eu fumo em um cachimbo bem pequeno, pois o papel já é uma toxina a mais). Sinto que meu corpo está acumulando energias já que não tenho saído do quarto. Hoje é o sexto dia que não saio de casa. Estou esperando a Jackie chegar, e pedir a ela companhia pra dar uma volta no quarteirão ou só fazer uma caminhada juntas. Tentamos fazer isso ontem mas não reagi muito bem. Eu odeio ficar em casa sem o que fazer, ou fazer sempre a mesma coisa. E isso é uma armadilha pois meu psicológico não me permite fazer outras coisas. Enquanto escrevo, escuto um dos áudios que recebi hoje da Rosiane, minha psicoterapeuta (ainda não sei se uso o termo correto, vou me lembrar de perguntar). São melodias bilaterais, você escuta sons diferentes em cada ouvido (pelos fones de ouvido) , isso parece estimular o nosso cérebro de maneira eficaz, e de maneiras diferentes dependendo da melodia.
Ontem fiz uma experiencia. Treinei meu lugar de calma e me permiti viajar nas minhas memórias apenas pra assistí-las, e assim perceber qual memória era mais remota em minha mente. Eu via diferentes acontecimentos na minha vida, e consegui ver apenas memórias tóxicas. Vi e re-vi vários episódios até notar uma semelhança entre todos eles: meu pai sempre fazia parte deles.  Não consegui evitar que minha mente juntasse as peças e percebesse como tudo começou quando o meu pai deixou que seu passado interferisse em minha vida, na vida da minha mãe e na vida do meu irmão. Primeiro ele apareceu com uma filha de 18 anos, de outra mulher, colocou ela em nossas vidas e quando ela desapareceu, se instalou o caos. Além desse caos que foi causado na minha cabeça, foi causado um caos no casamento dos meus pais (acredito que devido ao passado do meu pai vir a tona). Meu pai jurou que não havia traído minha mãe (mas já traiu sim que eu sei), a filha é com uma ex namorada (a mesma que vivia ligando pra ele enquanto ele estava casado com minha mãe, e a minha mãe retornou a chamada uma vez e descobriu). Entendo minha mãe se ela tiver reagido de maneira negativa na época, imagino que ela não aprendeu a lidar com esse tipo de situação antes então acabou sendo um acontecimento horrível pra ela. Logo em seguida, meus pais se separaram. Tiraram de mim o Lupi e a Dara, eram um casal de Poodle que eu amava muito, lembro deles até hoje e confesso que sinto muita falta. Foram levados pra roça já que meus pais estavam se separando e onde eu moraria com minha mãe e meu irmão não aceitava animais de estimação. Foi nessa casa que minha mãe concluiu que eu tinha depressão. A casa que eu me pendurava no terraço pra ver a casa da minha irmã. Lembrei de outra coisa que fazia minha mãe sofrer muito. Perto de casa tínhamos apenas uma mercearia, era onde comprávamos o pão e também o sabão em pó; lá tinha de tudo! Mas tinha também a casa da minha irmã. Minha mãe me pedia pra ir na mercearia e eu entrava em pânico, porque precisava passar na porta da casa da minha irmã, e eu não queria passar por outra rejeição, já tinha sido horrível o bastante ela mudar de calçada quando me via na rua, então eu voltava pra casa chorando com medo da minha mãe que sempre foi muito brava brigar comigo, mas com mais medo ainda da rejeição da minha irmã. Minha mãe sempre me fazia ir, mas as vezes ela ficava com pena e me deixava ficar em casa, então ela mesmo ia ou apenas desistia. As vezes quando ela me obrigava eu ia, e dava sorte da Anna Carolina não aparecer na janela ou na porta de sua própria casa. Eu fazia o percurso o mais rápido possível.
Me lembro bem quando nos mudamos dali. Foi como poder respirar de novo, mas não durou muito tempo, pois um homem abusivo havia acabado de aparecer na vida da minha mãe.
O nome dele era Marcos, Marquinhos. Era um homem barrigudo que fedia a cerveja e cigarro, e já tinha os cabelos meio brancos. Minha mãe só chorava desde o fim do casamento dela. Eu ficava com muita dó da minha mãe (ela já quase se matou nessa mesma época. Ela diz que Jesus a salvou!). Eu lembro de um sonho que eu tinha muito quando ainda dormia dentro do meu berço: minha mãe estava presa dentro de um carro, um carro meio bege, com os vidros fechados. Alguém queria fazer mal a ela e eu sofria nesses sonhos porque eu era ainda uma criança, no sonho eu nem dava altura direito pra bater no vidro do carro. E a minha mãe chorava muito dentro desse carro. Não sei exatamente em que época foi, mas sinto que minha ligação com minha mãe é mais forte do que qualquer um de nós pode entender, e isso ajudou a adubar o caos que já existia em mim, pois eu gosto de meninas, e eu sou uma menina. E em determinada parte da minha vida, isso se transforma em uma guerra, da qual talvez eu fale em outro momento.
O marquinhos nunca me encostou um dedo sequer, e se um dia o fizesse certamente seria morto ou preso. Mas ele tinha o jeitinho "abusivo" dele de ser. Descobri há pouco tempo que ele batia na minha mãe no meio da rua, e dentro de casa também. Eu me lembro de vários episódios em que minha mãe discutia com ele e aparecia chorando MUITO com a respiração MUITO irregular, sempre parecendo que estava infartando (e como eu chorava de medo de perder a minha mãe...), e nesse exato momento me veio a mente que a minha mãe já passou pelo que eu estou passando atualmente, se aquilo não era uma crise de pânico, eu não sei o que é. Meus tios irmãos dela sempre vinham ajudar, levar ela de carro pra casa da minha avó, e sempre brigavam com ela por ela não largar ele. Eles não entendiam que a minha mãe era ameaçada todos os dias pelo Marquinhos. Ele torturava ela, falava que ia matar o meu pai (minha mãe amou meu pai por anos). As vezes ele era mais cruel ainda, falava pra ela que ia matar o Marcelinho e a Amanda. Então ela criou essa ilusão na cabeça dela de que se ela não fizesse nada os filhos dela ficariam bem. E assim uma mulher é assassinada a cada 2h no Brasil, entre 822 a 1370 mulheres são estupradas POR DIA NO BRASIL. E muita gente ainda critica o feminismo e a educação sexual nas escolas. Se eu tivesse tido educação sexual na escola ou mesmo fora dela, eu teria entendido que posso dizer não quando um homem toca no meu corpo sem a minha permissão. Eu teria entendido que se um tio meu faz uma coisa dessas, que ele deveria estar preso, se não estivesse morto. (E os dois morreram.) Se eu tivesse tido educação sexual eu teria conseguido discernir um abuso de uma relação que eu quero ter naquele momento. Eu teria evitado uma sexualização precoce que hoje reflete em um bloqueio mental horrível que me impede de me entregar 100% a outro ser humano na cama, mesmo que eu queira muito.
Do nada Marquinhos apareceu, e do nada Marquinhos desapareceu de nossas vidas, mas acredito que foi preciso um pouco de violência e ameaças dos meus tios pra isso acontecer (não tenho certeza pois nunca entendi muito o que acontecia a minha volta, hoje eu penso nas situações e consigo tirar novas conclusões, isso é atormentador).
Eu já fui mordida por cachorro no rosto, já fui mordida por cachorro na bunda, já fui assaltada e saí na porrada com o assaltante, eu já andei de moto sem carteira, já sofri acidentes enquanto andava de moto sem carteira, eu já tive porres e mais porres desde os 14 anos de idade, já tive vício em cocaína e uma quase overdose, eu já menti pra minha mãe pra poder viajar ou pra aprontar qualquer besteira típica de adolescentes rebeldes, eu já namorei homem, já namorei mulher, eu já me relacionei com ambos ao mesmo tempo, já experienciei um orgasmo mas nunca consegui com outro ser humano (graças a Deus eu teimei em procurar conhecer o meu corpo, acho que eu já teria me matado de frustração se não). Eu já me envolvi em brigas na porta da escola por influência dos outros e nessa mesma briga eu parei pra deixar a moça abotoar a blusa dela (eu rio sempre que me lembro dessa briga hahaha) e depois voltamos a brigar. Eu nunca tirei 100% em uma matéria no colégio mas pouquíssimas vezes eu ficava abaixo da média, e nunca tirei um zero. Eu nunca tive iniciativa em uma briga corporal nem em uma briga devida a ofensas direcionadas a outro ser humano, mas sempre entrei em brigas que eu julgava ver injustiça; eu sempre entrava pra defender o mais fraco. Eu já nadei pelada, já nadei com roupa, já perdi um celular na privada, já perdi um celular no brinquedo do parque de diversões, já bebi por 15 dias direto em uma praia, e adquiri uma bela gripe que durou quase 5 semanas. Eu já decepcionei pessoas com traição em relacionamentos, eu já fui traída em relacionamentos. (Eu tenho um GRANDE problema em confiar nas pessoas, o que me leva a agir da maneira que minha mente doentia acha que elas agiriam comigo, me transformando na vilã da situação) Eu já fiz muitas loucuras nessa vida, já aprontei coisas demais pra uma moça de 25 anos e 6 dias! E não me orgulho de nada disso, mas agradeço por tudo que aprendi passando por essas situações.
Eu quero ser uma mãe melhor do que eu tive para os meus filhos, mas tem um tempo que eu perdi essa vontade que antes era tão intensa em mim. Ser mãe! Desde criança eu sempre tive sonhos de estar ganhando uma linda garotinha! E eu ficava muito triste quando acordava e via que não era real. Hoje sonho com a morte, e fico triste quando acordo e percebo que não é real. E também não me orgulho disso, o que me levou a buscar ajuda.
Eu gosto de falar bastante, de explicar bem as coisas, porque já fui muito mal interpretada nessa vida. Mas grande parte da minha vida eu fui muito solitária. Mesmo. Eu fui uma criança solitária. Eu fui uma adolescente solitária. E me tornei uma adulta extremamente solitária. Eu gostaria de mudar isso, mas não sei se acredito 100% nessa possibilidade. Parte de mim está empolgada pela terapia, eu tenho estudado bastante essa terapia. Parte de mim acha que é perda de tempo pois já tem consciência de como sou péssima pra manter meu comprometimento com as coisas.  No início de toda nova ideia eu sou a pessoa mais comprometida do planeta. Quem vê acha até que sou feliz. Mas não demora muito até meu brilho começar a desaparecer, os pensamentos de cobrança voltarem, e os sentimentos de auto piedade se misturam com toda bagunça que existe dentro de mim. Eu sou uma pessoa extremamente insegura (eu ia dizer  controladora mas acho que insegura é mais justo), eu sofro por tudo. Tudo se torna um desafio na minha vida. O tempo é meu pior inimigo pois sou extremamente hiperativa. Hoje, me dá desespero em pensar no possível tempo de terapia que vou precisar. Me dá desespero pensar em fazer coisas que levam anos, como por exemplo uma faculdade. Eu tô literalmente cansada da vida. Me dá desespero até pensar em esperar mais uma semana pra próxima sessão, eu nunca sei quando a crise vem nem porque vem. Eu  confesso que tenho medo de não dar tempo. Eu não reconheço a pessoa que eu me torno. (Percebi que já repeti muitas vezes a palavra crise, percebe o quanto isso já tomou conta de mim? Sem crises eu só penso nas crises. Isso é doentio!)
Parece que existem duas pessoas dentro de mim. Uma megera que aparece sempre que começo a me sentir feliz, que começa a me fazer pensar no quanto sou preguiçosa e nã tenho talento algum, no quanto as outras pessoas conseguem se adequar a sociedade e eu não. Sobre como todos sabem ouvir um não sem sofrer com isso, e eu já estou cansada de nãos. A vida inteira sempre não. Você não pode. Você não vai. Você não é. Você não vai ter. Você não vai poder. Você não vai ser. E sim, eu já ouvi tudo isso e muito mais, de pessoas diversas, inclusive de pessoas que eu acreditava serem amigos.
E também existe uma criança dentro de mim. Prefiro pensar assim. Essa outra metade de mim é só amor. É a esperança que sempre fica em mim de algo impossível acontecer (chego a ter fé em milagres). É a pessoa que prefere ficar em casa e fazer algo produtivo, assistir um filme com os amigos e comer pipoca ao invés de ir pra balada encher a cara (e olha que eu adorava festas, dançar, uma cervejinha com os amigos depois do trabalho, etc). É a criança que ao mesmo tempo é a parte mais sensata de mim, que se coloca no lugar dos outros e muitas vezes deixa de fazer por si pra fazer pelo outro. É a metade fascinada pelos animais e pelas criações de Deus, que acha um absurdo cruzar o olhar com alguém na rua e não sorrir. Essas duas juntas formam a bagunça que eu sou.

Ultimamente tudo que fuja dessa minha rotina miserável me perturba.
Eu sei que erro muito o tempo inteiro, mas eu ainda me sinto injustiçada pelo mundo. Isso dificulta meu esforço pra acertar. Hoje minha escrita foi uma grande bagunça pois eu não voltei pra ler nem corrigir nada, eu estou simplesmente colocando pra fora da maneira que as coisas vem na minha mente. Agora vou parar, e talvez eu não volte mais por hoje. Mas talvez eu volte pra falar sobre o incômodo que estou sentindo em saber que preciso descer até a cozinha pra fazer um jantar, e sobre o incômodo que estou sentindo em saber que eu me estabeleci uma meta de fazer uma caminhada de pelo menos 15 minutos essa noite, do lado de fora de casa.

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